Marcus Vinicius Garrett Chiado e os livros 1983 e 1984


Matéria de: 06/08/2013

Nosso país, como bem sabemos, é uma imensa bagunça em diversos aspectos e setores onde o Governo está envolvido.

Nos vídeo games isso não seria diferente é claro.

Se hoje nós temos preços exorbitantes e impostos abusivos em consoles e jogos que em sua maioria são importados, saiba que isso ocorre desde sempre em nosso país.

Os anos 80, início de uma febre na área de jogos eletrônicos, foram até então, ainda mais repleto de peculiaridades, desorganização e falta de incentivos fiscais e de mercado.

Proibição de importação de material eletrônico, altos impostos, reserva de mercado que tentou "proteger" o mercado de computação no país foram alguns dos fatores que não permitiram com que muitas empresas, fizessem em terras brasileiras, seus polos industriais e comerciais.

No meio dessa bagunça, a Polyvox (Atari) e a Philips tentaram ainda assim, batalhar por um espaço repleto de clones (muitas vezes sem qualidade) e nenhum pagamento de direitos autorais.

É nesse ambiente, que Marcus Vinicius Garrett Chiado, experiente gamer e pesquisador resolveu se embrenhar e buscar informações e conhecimentos preciosos e assim, rememorar uma época em que era muito difícil (como se hoje não fosse) obter um console ou os jogos "do momento", mas que era cheia de magia, diversão e para nós, nostalgia pura!

Em 2011, lançou o livro "1983 - O ano dos videogames no Brasil" e contou de uma maneira muito didática, envolvente, divertida e cheia de informações preciosas dados sobre o mercado de jogos eletrônicos daquele que é considerado não só no Brasil, mas no mundo como um ano importante para a história dos videogames.

Aqui no Brasil pelo "boom" que os games e as novidades que lotaram as prateleiras de lojas como Mesbla, Mappin e muitas outras causou e nos Estados Unidos pela crise que se instalava lá por conta de problemas da Atari e a chegada da computação caseira com força total.

O autor que é um profundo conhecedor do assunto, conta histórias da época e baseadas em pesquisas e até mesmo com a ajuda de alguns colecionadores que mostraram raridades que muitas vezes, foram chamadas de lendas como um clone do Atari chamado Robby que era branco e muito raro.

Após o sucesso do primeiro livro e com muito assunto ainda para abordar, Marcus decide lançar uma continuação intitulada "1984 - A febre dos videogames continua" onde conta mais detalhes daquela época e traz ainda mais informações preciosas que se complementam ao conteúdo do primeiro livro, trazendo assim, mais novidades de uma época em que nós nos preocupávamos mais em jogar e não sabíamos muito bem o que acontecia nos bastidores ("nós", eu digo no geral, pois eu que sou de Fevereiro de 83, tinha acabado de nascer e só fui curtir e jogar um Atari em meados de 1987).

Os dois livros são itens obrigatórios para quem quer relembrar, aprender e saber mais sobre o começo de uma era que tínhamos trocas de cartuchos com amigos de escola, locadoras e clubes onde o assunto era a novidade tecnológica do momento: os jogos!

Neles você vai encontrar muitas informações precisas, incluindo valores corrigidos para os atuais montantes para que se tenha base de quanto custava um Atari, por exemplo, naquela época. Você vai se surpreender!

Além disso, tudo que eu já citei, trechos de diversas entrevistas com empresários e outras pessoas envolvidas com as empresas da época serão encontrada nas páginas das publicações e assim, teremos a comprovação de que era um momento de muita novidade, mas também de muita dificuldade o que torna ainda mais interessante a leitura.

Sei que você que ainda não leu o livro, ficou com vontade de fazê-lo e quem já leu, vai ler novamente!

Porém, antes de você fazer isso, leia abaixo uma pequena entrevista com o Marcus Vinicius Garrett Chiado e conheça mais dele e do processo de criação dessas obras!

Nolan Bushnell e Marcus Vinicius Garrett Chiado

Old School Gamer: Como surgiu a ideia de escrever sobre videogames e ainda mais sobre um momento tão específico e importante sobre o assunto no Brasil?

Marcus Chiado: A ideia surgiu a partir de uma vontade própria de achar tais informações e de não encontrá-las facilmente por aí, isto é, de forma "mastigada". O material sempre esteve muito disperso e esparso nas publicações e jornais daquele período, então, resolvi arregaçar as mangas, pesquisar e ordenar tudo. O processo foi bem trabalhoso, mas também bem divertido e prazeroso.


OSG: Quanto tempo (aproximadamente) levou desde o principio das pesquisas até a impressão do primeiro livro?

MC: Bem, estou envolvido com videogames e micros desde o começo dos anos 80, então, de uma forma ou de outra, "desde sempre" tive contato com aquele universo. Além disso, já escrevo sobre o assunto desde 2004, quando iniciei, ajudado por amigos, a revista eletrônica Jogos 80. Em relação ao primeiro livro, creio que o processo tenha levado uns 5 ou 6 meses de trabalho praticamente diário.


OSG: Qual é a sensação de ter entrevistado e conhecido pessoas que participaram ativamente na construção da cena gamer no início dos anos 80 no Brasil? E conte um pouco sobre como foi estar ao lado de Nolan Bushnell.

MC: Tivemos a chance, também por causa da Jogos 80, de entrevistar diversas personalidades do mundo dos games, tais como Ralph Baer (criador do primeiro Odyssey), Howard Scott Warshaw (programador que trabalhou na Atari, criador de Yars? Revenge), David Crane (fundador da Activision, criador/programador de Pitfall!) e outras. Como bem citou, tive a oportunidade de conversar, "ao vivo", com Nolan Bushnell durante a Campus Party Brazil 2013. Ele foi muito simpático para comigo, muito educado e sempre sorridente. Por fim, conseguimos entrevistá-lo, de uma maneira meio "mirabolante" (vide a Jogos 80 de número 11), e foi como a realização de um sonho.


OSG: Imagino que houve situações e/ou informações que foram novidades até mesmo para você no momento das pesquisas, alguma lhe chamou a atenção em especial?

MC: Sim, é claro. Eu pude, finalmente, constatar - ou não - os boatos que foram propagados através dos anos. Uma novidade interessante e engraçada foi constatar que a empresa Microdigital, conhecida produtora dos micros da linha TK, chegou a montar um protótipo do videogame Onyx e esse protótipo foi feito de papelão e isopor especialmente para um evento! A história, no mínimo pitoresca, está no livro "1983".


OSG: Ao ler teus livros, vemos diversas tentativas de se implantar novidades tecnológicas que nem sempre deram certo. Qual foi o console ou acessório que lhe chama a atenção e que de repente, não fez sucesso ou nem fora lançado no mercado?

MC: Um aparelho que não vingou, apesar da boa idéia, foi o Supercharger da Canal 3 Ind. E Com. Ltda. Trata-se de um cartucho especial por meio do qual era possível carregar jogos do Atari a partir de fitas cassete. Segundo declaração da pessoa que chegou a produzi-lo no Brasil, o Sr. Joseph Maghrabi, a procurar pelo Supercharger foi muito pequena, não valeu o esforço.


OSG: O Brasil, na tua opinião, na questão governamental, mostrou alguma evolução desde aquela época em relação aos jogos eletrônicos? O que é preciso fazer para que tenhamos um país favorável nesse aspecto?

MC: Sim, as coisas melhoraram muito, mas o que precisa ser feito para que o Brasil possa realmente deslanchar em relação aos games é a redução de impostos. Sem a redução, não há muito o que se fazer. Pessoas como o amigo Moacyr Alves, da ACIGAMES, estão procurando mudar essa situação com o projeto "Jogo Justo".


OSG: Qual é a sua opinião sobre a Reserva de Mercado e acha que ela realmente trouxe algum benefício para o país?

MC: A Reserva foi boa e foi ruim - dependendo-se, é claro, do ponto de vista. A Reserva divide opiniões até mesmo de quem viveu o período e esteve envolvido com a fabricação de clones. Se por um lado foi um fator que limitou as opções, por outro, propiciou uma gama de clones feitos no Brasil; aparelhos e cartuchos que, de outra forma, dificilmente existiriam na quantidade e na diversidade que tivemos.


OSG: Atari, Odyssey, Intellivision ou Coleco?

MC: O videogame que mais desejei ter na infância foi um ColecoVision, mas o aparelho era muito, muito caro. O videogame que me marcou, então, foi o Atari 2600 mesmo, que ganhei no Natal de 1983; o da Polyvox. Guardo diversas ótimas recordações dele!


OSG: Quais são seus consoles e computadores favoritos?

MC: Atari 2600, ColecoVision, Intellivision, ZX Spectrum, BBC Micro, Commodore 64.


OSG: Quais são seus jogos favoritos?

MC: Gosto, particularmente, dos jogos da Activision para o Atari, tais como River Raid e Decathlon. Para o Coleco, gosto das conversões de arcade, como Zaxxon e Congo Bongo. De computadores, gosto muito de jogos das softhouses inglesas, tais como Imagine, Ultimate e Superior Software.


OSG: Quem é Marcus Vinicius Garrett Chiado?

MC: Sou uma pessoa que gosta de reviver o passado, a infância, por meio dos equipamentos e dos jogos. Além dos jogos, adoro filmes e séries de tevê, especialmente de Ficção Científica e Terror, e a chamada Literatura Fantástica também.


OSG: Sei que além dos livros, você toca o projeto Jogos 80. Existe planos para projetos futuros ou a possibilidade de termos outras publicações de sua autoria relacionada ou não aos games?

MC: Eu gostaria de escrever um livro sobre os primeiros anos da informática pessoal no Brasil, sobre os TKs, os CPs e outros, e o livro poderia conter uma parte dedicada aos games dos micros, é claro. Esse seria um projeto bem mais complexo e que exigiria bem mais recursos, tempo e dedicação. Quem sabe!?


OSG: Onde podemos encontrar seus livros? Existe ainda material impresso ou agora só a versão digital?

MC: Ainda existe material impresso, mas do "1983" há menos de 10 livros à venda, então, quem quiser, corra! Os livros podem ser adquiridos diretamente de mim via e-mail: marcus.chiado@gmail.com

Existe uma versão digital lançada recentemente, ela contempla os dois primeiros livros e mais quatro apêndices que escrevi especialmente. O "1983+1984: e mais!" pode ser adquirido clicando aqui!


Quero agradecer primeiramente pela criação destas duas obras que faço questão de indicar sempre que possível e também pela atenção dedicada em ler e responder as questões para essa matéria aqui no Old School Gamer!

João Carlos Alves
Old School Gamer

Desenvolvedor web, casado, moro em São Paulo e sou pai da Amandinha. Amo Final Fight acima de todos os jogos e Street Fighter II jamais será superado!
@oldschool_gamer

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Hallison Batista30/05/2014

Excelente! Muito obrigado pela matéria. Há um bom tempo estou pesquisando texto sobre a história dos jogos eletrônicos no nosso idioma e, principalmente, sobre o nosso mercado.

Um abraço.